INVESTIR SIM, DESPERDIÇAR NÃO
*Áurea Rangel
Os números apresentados neste início de ano pelas autoridades sobre mortes e acidentes nos estradas federais brasileiras podem ser explicados de maneiras distintas. Mas nenhuma destas maneiras pode apontar para a falta de investimentos. Isso porque 2007 foi um ano de injeção de recursos recorde, segundo o Ministério dos Transportes. Obras e compras de equipamentos, além do pagamento de dívidas já contraídas, somaram a maior quantia empregada nos últimos nove anos: R$ 5,6 bilhões para ferrovias, estradas e transporte aquático.
Também é verdade que mesmo esta significativa cifra passou longe de fazer jus ao valor autorizado pelo Governo Federal na previsão orçamentária 2007, quando foram anunciados mais de R$ 10 bilhões em investimentos. Além disso, a divisão do montante não teve critérios muito claros. Dos 783 programas de trabalho listados no Orçamento Geral da União (OGU) 315 não receberam nenhum centavo dos cofres públicos.
No setor rodoviário, a obra que mais recebeu recursos do Ministério dos Transportes no ano passado foi um trecho rodoviário na BR-101, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, onde foram aplicados R$ 263,7 milhões. Além disso, a construção do trecho Sul do Rodoanel em São Paulo também ficou bem colocada. A obra recebeu investimentos na ordem de R$ 232 milhões no ano passado.
Mas nem só de números vivem as estradas brasileiras. O dinheiro aplicado – por mais que pareça incongruente – não obrigatoriamente trará uma solução viária eficaz. Para o cientista político especializado em planejamento estratégico e urbano Antônio Flávio Testa, a matemática mais investimentos, menos acidentes não é assim tão lógica. Segundo ele, a injeção de capital nem sempre é sinônimo de boa gestão e boa fiscalização. Para Testa, “(...) a incompetência gerencial, a descoordenação entre os órgãos de governo, a ingerência político partidária e o descompromisso com bons resultados marcam negativamente o sistema de governo”. E o mais importante: “(...) Não adianta aumentar verbas, se não há planejamento estratégico nem fiscalização sobre a qualidade das obras realizadas”.
O critério técnico, o planejamento estratégico e a busca da solução mais eficaz para pavimentar e sinalizar uma estrada estão muito além de uma Operação Tapa-Buraco. Para a conquista da cura definitiva para determinadas doenças é necessário pesquisa. A epidemia de maus tratos que ganha os quilômetros das rodovias brasileiras precisa de uma vacina eficaz e definitiva chamada bom senso. Bom senso para que rios de dinheiro não desapareçam na primeira curva.
A experiência das estradas concessionadas deveria servir de exemplo para que os órgãos responsáveis aprendessem sobre gestão administrativa profissional de rodovias. A Nova Dutra, por exemplo, herdou um problema de aderência de sinalização no trecho da Serra das Araras, no Rio de Janeiro. Por ser uma região com clima bastante úmido, a estrada de traçado sinuoso e com pesado tráfego de caminhões não segurava a sinalização horizontal. O problema foi sanado com investimento em tecnologia. Desenvolvimento de produto específico para sanar aquela dificuldade. A sinalização fixou, o usuário ganhou segurança de tráfego e a concessionária economizou repinturas constantes e infrutíferas das faixas sinalizatórias. Isso sim é matemática lógica. Porque o motorista também faz esta conta. O fato de pagar pedágio está tornando o usuário de rodovias mais exigente e consciente de seus direitos. Ele paga e acha caro sim, mas reconhece os serviços e as boas condições das privatizadas.
Aliás, a questão do tráfego de caminhões no Brasil merece um olhar diferenciado. Isso porque cerca de 60% do transporte de cargas é feito por rodovias. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), com base em dados revisados recentemente pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), aponta que um caminhão se acidenta a cada cinco minutos nas estradas federais. Segundo o sistema de informações de morbi-mortalidade do Ministério da Saúde, são registradas no País 35 mil mortes na área de transportes por ano. Quatro por hora. Uma a cada 15 minutos. E as más condições das estradas assinam embaixo de boa parcela destes óbitos.
*Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e especialista em sinalização horizontal e infra-estrutura viária. |