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SOS RÉGIS BITTENCOURT

* Áurea Rangel

O que é ruim pode ficar ainda pior. E não se trata de um pensamento pessimista. Mas ele é conseqüência do descaso de nossos governantes com a vida. Se o Governo estava de parabéns por ter movimentado de maneira mais efetiva a questão das privatizações de rodovias, demonstrando visão de jogo ao abrir mão da onipotência e aceitar que este é o único caminho possível para as estradas brasileiras, agora ele novamente faz o papel de vilão ao abandonar à própria sorte os usuários de uma das mais castigadas rodovias do País, a Régis Bittencourt. Não que as ações paliativas promovidas nos quilômetros mais críticos desta estrada a tornassem trafegável. Longe disso. A BR 116, especialmente no trecho entre Micaratu e a divisa com o Paraná, onde está a Serra do Cafezal, é uma calamidade pública. E o pior: se já não sofria intervenções necessárias nos quesitos pavimento e sinalização, imaginem agora, pós-batida de martelo das novas concessões rodoviárias.

Porém, os espanhóis da OHL só assumem o efetivo em fevereiro. E, mesmo assim, terão seis meses para executar as obras mais que necessárias. Mas e até lá? O mandatário público já lavou as mãos? Parece que sim. Segundo estimativas da Polícia Rodoviária Federal, nos 162 quilômetros da Régis Bittencourt entre as cidades de Juquiá e Barra do Turvo, por exemplo, acidentes provocados por buracos aumentaram cinco vezes em novembro, logo após os leilões. Os usuários que costumam trafegar pela inóspita rodovia confirmam: depois que a privatização foi acertada, o pouco que se fazia em termos de consertos e remendos acabou. Ninguém arrumou mais nada.

O que parece não sensibilizar o Governo Federal a assumir sua responsabilidade como gestor de obras públicas é que o risco que rodovias como a Régis Bittencourt oferecem não é o de o motorista ter um pneu estourado ao cair em um dos nada sutis buracos do verdadeiro queijo suíço no qual se transformou esta BR. O risco é de perder a vida por conta da negligência estatal. É uma roleta-russa. Sem esquecer que o período de férias ainda nem começou. E a Régis é a principal via de acesso entre o Sul e o Sudeste do País. Por isso mesmo é rota dos caminhões que transportam para o Mercosul.

Segundo o DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes), cerca de 25 mil veículos partem de São Paulo todos os dias para se arriscar nas curvas não sinalizadas da BR 116. São 401,6 quilômetros que alternam trechos trafegáveis e outros impossíveis, como é o caso dos 31 quilômetros da Serra do Cafezal.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que acidentes de trânsito em rodovias brasileiras custam R$ 22 bilhões aos cofres públicos por ano. A maioria - 52% das ocorrências - se concentra em cinco rodovias federais, sendo a BR-116 a campeã em número de acidentes. Segundo a pesquisadora do Instituto Patrícia Alessandra Morita, grande parte destas ocorrências poderia ser evitada com investimentos em obras consideradas baratas, como sinalização ou iluminação de passagens de pedestres. O fato é que a falta de conservação das estradas é determinante para a gravidade das ocorrências. Sem dúvida não há como não considerar os fatores humanos, como a idade da frota e a negligência dos condutores. Mas a falta de duplicação de pistas, o mau estado da pavimentação e a completa ausência de sinalização horizontal armam uma verdadeira arapuca para os usuários.

São tragédias anunciadas passíveis de serem evitadas com medidas simples e de baixo custo. Mas que podem salvar vidas até que a orfandade da Régis ganhe a administração responsável que uma estrada tão importante como esta merece.

*Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e especialista em sinalização horizontal e infra-estrutura viária.



 
 
 
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