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NEBLINA: PERIGO NAS ESTRADAS

* Áurea Rangel


28 junho de 1977: a Via Anchieta foi palco de um dos piores acidentes rodoviários de que se tem notícia no mundo. Quinze mortos, 300 feridos e 140 veículos destruídos. Um denso nevoeiro – típico desta época do ano em algumas regiões do país – foi o grande vilão, em um tempo em que a sinalização era pouca e não haviam sido desenvolvidas soluções adequadas e específicas para reduzir os efeitos da neblina para quem trafegava.

O extinto jornal Cidade de Santos, publicou em edição posterior ao ocorrido que a Dersa – então responsável pela administração da estrada que liga a capital paulista à Baixada – admitia não ter meios de prevenir este tipo de tragédia. “A Dersa (...) não dispõe de outro esquema de prevenção de acidentes além da educação do usuário do complexo Anchieta-Imigrantes, segundo admitiu (...) o diretor presidente da empresa, engenheiro Luís Roberto Marri do Amaral. O único meio de impedir novas catástrofes como a de terça-feira, em que 15 pessoas morreram e 285 ficaram feridas, seria o fechamento parcial e temporário das pistas sempre que ocorrerem nevoeiros com visibilidade zero. (sic)” Acreditando não haver meios mais eficazes, foi cogitado à época aumentar a sinalização sob neblina com (pasmem) tochas.

Junho de 2007: nove pessoas morreram em um engavetamento envolvendo nove veículos, entre eles vários caminhões, na altura do km 8 da pista sul, sentido Campinas/Jacareí, em Jacareí (Vale do Paraíba), da Rodovia Dom Pedro I. Segundo a Polícia Rodoviária Estadual, o acidente foi causado pela forte neblina que atingia a região no momento.

Neste 30 anos que separam uma tragédia rodoviária da outra é notável que a tecnologia dos produtos de sinalização sofreu grato avanço. Se há três décadas não havia muito o que fazer para tentar aplacar este tipo de acidente provocado pela escassa visibilidade hoje o Brasil não só fabrica soluções de sinalização como exporta. O desenvolvimento de produtos voltados ao mercado de infra-estrutura viária no que diz respeito à sinalização horizontal leva em conta justamente fatores climáticos como nevoeiro e chuva. Existem, sim, tintas que acoplam em suas composições microesferas que promovem justamente a visibilidade da sinalização quando ela mais precisa ser vista: em condições adversas. E as tochas estão dispensadas.

Não se pode negar que a prudência do motorista é uma das ferramentas importantes para se evitar um acidente como o da Rodovia Dom Pedro. Mas trafegar às cegas por uma estrada, mesmo com a velocidade controlada, é uma tarefa árdua e perigosa. Lançar mão da tecnologia para empregá-la onde ela se mostra indispensável está na pauta do Governo Federal com o programa Pro Sinal, que visa trocar e pintar placas e faixas de sinalização em rodovias, além de instalar dispositivos de segurança, como tachas, balizadores e painéis de mensagem. A previsão é que 24 mil quilômetros de faixas sejam pintadas. Parte dos recursos ainda espera liberação para dar prosseguimento às obras que começaram no ano passado. O dinheiro precisa sair da gaveta para que os engavetamentos, como o de Jacareí, tornem-se passíveis de serem evitados.



* Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e diretora executiva da Hot Line.

 
 
 
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