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CONCESSÃO: HORA DE DAR A VOLTA POR CIMA

* Áurea Rangel

Após 11 anos de inércia o Governo Federal finalmente resolveu levantar e sacudir a poeira das estradas brasileiras, retomando o que parece ser a decisão mais lógica para um País que não tem como sanear a malha rodoviária com recursos próprios. Como afirmou o jornalista Alberto Tamer, “eles (os investidores) têm o dinheiro que precisamos e nós temos as oportunidades que eles procuram”. Não há nenhuma perniciosidade nesta relação. Ela é, acima de tudo, mercadológica. E, especificamente no caso do Brasil, é mais até uma questão de lógica do que de mercado.

A explicação é simples: de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a malha rodoviária brasileira tem hoje pouco mais de 1 milhão e 744 mil quilômetros. Sem a iniciativa privada fica impossível manter a ordem na casa. Não só porque os recursos governamentais jamais serão suficientes, mas porque existe a necessidade de crivo técnico na hora de assinar obras de recuperação das estradas brasileiras. Anunciadas com alarde em janeiro de 2006, a operação Tapa-Buraco, por exemplo, desmoronou antes de completarem dez meses. As reformas emergenciais, feitas até julho do ano passado, não agüentaram nem o fim do ano eleitoral. Na maior parte dos cerca de 26 mil quilômetros de estradas federais reformadas, as chuvas e o tráfego pesado fizeram escorrer pelo ralo investimentos estimados em mais de R$ 400 milhões. Feitos às pressas – em trechos que somam 7.400 quilômetros – os remendos não agüentaram o tranco e chegaram a criar novos riscos à segurança dos motoristas.

A problemática que envolve a malha rodoviária no País não é apenas estrutural, mas essencialmente de saúde pública na medida em que trafegar por uma rodovia com péssimas condições de pavimento e sinalização é uma roleta-russa que leva a cerca de 50 mil mortes todos os anos, segundo estimativas. A próxima vítima pode ser qualquer um de nós. A imprudência de motoristas mata e deve ser combatida com mãos de ferro: vale multar, reeducar e o que for preciso para tentar conter esta leviandade. Mas os dirigentes têm obrigação de dar condições de tráfego. Porque, caso contrário, a consciência de quem dirige com cautela de nada adiantará.

O dinheiro estrangeiro é bem-vindo. Não só porque ele estará à serviço dos usuários de rodovias, mas porque ele chega com o compromisso de ser bem empregado. A concessionária elege seus fornecedores não apenas pelo menor preço, fazendo uma conta que se mostrará burra em curto espaço de tempo. Os recursos da iniciativa privada são pensados e procuram por soluções eficientes e duradouras. Pensam como empresa e como tal não tem interesse em conjugar o verbo refazer. O fazer bem feito é a regra.

Não foi à toa que a espanhola OHL Brasil dominou o leilão de trechos de rodovias federais e toreou cinco editais, somando 2.078 quilômetros. Recente levantamento feito pela Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento apurou que as multinacionais consultadas pretendiam investir, apenas este ano, US$ 1,4 trilhão no exterior. Deste bolo o Brasil já recebeu em 2007 US$ 32 bilhões.

A boa notícia é que o Governo acordou do sono profundo e resolveu olhar mais de perto para a questão de infra-estrutura do País. Recursos estrangeiros existem e aguardam, ansiosos, por projetos. Portanto é a nossa vez de dar as cartas.


*Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e especialista em sinalização horizontal e infra-estrutura viária.



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