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CUIDAR DO CONTROLE AÉREO SEM DESCUIDAR DO TERRESTRE
* Áurea Rangel
Uma vez que a segurança nos vôos e o caos aeroportuário dos últimos tempos se tornaram assuntos obrigatórios, torna-se oportuno falar, mais uma vez, sobre um item que não pode passar desapercebido quando o que está em jogo é a segurança.
Os próprios controladores – sujeitos principais dos noticiários dos últimos dias – alertam que os momentos mais críticos de um vôo são o pouso e a decolagem. É quando a atenção de pilotos e dos responsáveis pela torre de comando precisa ser absoluta. Diante deste quadro, um outro personagem entra em cena: a pista. Ela pode parecer atriz coadjuvante quando as operações de decolagem e aterrissagem acontecem sem maiores sobressaltos, mas transforma-se em protagonista e grande vilã quando algo não saí como o previsto.
Se nas estradas a qualidade tanto do pavimento como da sinalização horizontal são aliados na manutenção de uma viagem tranqüila, da mesma forma, quando falamos de um Boeing – de 400 toneladas, que pousa a cerca de 300 quilômetros por hora e deve realizar a frenagem em menos de 2 mil metros – a diferença entre uma pista em perfeito estado e outra com problemas de texturização no pavimento ou em faixas de sinalização pode ser a diferença entre vida e morte.
O detalhe é que a sinalização horizontal e as condições das pistas aeroportuárias do Brasil não fazem greve branca e nem operação padrão. Não se queixam da carga horária e nem do excesso do trabalho. Em outras palavras, não mandam recados: simplesmente demonstram, na prática e sem ensaios, que mereciam ter recebido mais atenção.
Desde 2003 a Infraero operacionaliza um plano de obras que moderniza a infra-estrutura aeroportuária brasileira para os próximos anos: as ampliações, reformas e construções ocorrem simultaneamente em várias regiões do País com o intuito de modernizar e ampliar os aeroportos. Para o próximo ano, o Governo Federal já anunciou investimentos de R$ 1,052 bilhões, inclusos os valores anunciados pela Infraero. A cifra vale a pena, mas se o dinheiro for empregado com responsabilidade. Mais do que salas de embarque com ar-condicionado, o sistema aeroportuário precisa ter condições para receber a grande vedete: a aeronave. No caso das pistas públicas, é o artigo 37, parágrafo 6o, da Constituição Federal quem determina a responsabilidade estatal pela má conservação das áreas.
No dito popular, é depois que o boi escapa que se lembra de fechar a porteira. No caso do aeroporto de Congonhas, que recebe 80% dos vôos domésticos do País, o boi precisou escapar, em pouco mais de um ano e meio, duas vezes para que uma atitude fosse tomada. Em março do ano passado, um avião da companhia BRA derrapou e, por pouco, não saiu da pista caindo na movimentada avenida Washington Luís. Na ocasião, a Infraero anunciou a reforma na pista, que ficou no anúncio. Apenas os procedimentos de limpeza foram intensificados, com a retirada de resíduos dos pneus dos aviões. Segundo os pilotos, estes restos de borracha prejudicam a aderência.
Menos de dois anos depois, em 6 de outubro, Congonhas ficou fechado por cerca de uma hora e meia, após uma aeronave da Gol, derrapar na pista ao aterrissar, ficando com metade da fuselagem no gramado. O piloto perdeu o controle devido à água no pavimento, proveniente da chuva que havia caído durante a madrugada. O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, atribuiu os problemas à aquaplanagem e reconheceu que a pista de Congonhas precisa ser melhorada. Um mês depois do segundo incidente, a Infraero anunciou que a retexturização da pista de Congonhas teve início em 7 de novembro. Ainda segundo a Infraero, o procedimento não é definitivo. A reconstrução da pista principal de Congonhas será iniciada em maio de 2007.
A questão deve apenas ligar os dois elos da corrente, levando produtos sinalizatórios com comprovada eficiência e durabilidade até os locais onde eles são mais necessários. Se o problema detectado é a aquaplanagem, o setor produtivo oferece boas e tecnológicas soluções para a questão. É só lançar mão do que a indústria brasileira tem de melhor para alçar um verdadeiro vôo livre sobre problemas que já deveriam ser coisa do passado. Da época de Santos Dumont.
* Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e diretora executiva da Hot Line.
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