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SIM, NO BRASIL CHOVE.

* Áurea Rangel


Logo no início de janeiro, a cidade de São Paulo foi sacudida pela trágica notícia do desabamento das obras da estação Pinheiros da linha 4 do Metrô. Fatalidade ou falha técnica. Certamente a resposta não devolverá as vidas perdidas e nem reparará os danos materiais à altura. Mas ela é importante como alerta para que se dê a devida importância ao uso racional de materiais e técnicas.

É constrangedor ouvir de engenheiros, teoricamente preparados para lidar com situações limites, que a culpa pela tragédia foi das chuvas. O jornalista Alexandre Garcia soube exemplificar bem o vazio desta resposta. Em sua crônica matinal na TV Globo, ele disse (sic) “Os engenheiros puseram a culpa do desabamento nas obras do metrô de São Paulo na chuva. Os responsáveis, no governo ou fora dele, explicam que houve o desabamento nas obras do metrô de São Paulo por causa das chuvas; que ruiu a barragem da mineradora da Zona da Mata mineira, por causa das chuvas; que os milhões de buracos no péssimo asfalto e o desabamento de estadas são causados pelas chuvas; que as quedas de barreiras que destroem vidas e casas, são causadas pelas chuvas. É preciso avisar a quem constrói que o Brasil é um país tropical, que tem chuvas torrenciais no verão, como acontece todos os anos. Em país que tem terremoto, as construções são feitas para resistirem o máximo possível. No país das chuvas de verão, o mesmo filme se repete (...). Os que constroem precisam saber que chove.” Olhar com seriedade para o modus operandi, levantando em conta qual a melhor solução técnica para cada situação, é uma saída racional. Talvez, infelizmente, só olhemos para estas questões com mais atenção quando tragédias urbanas acontecem. Mas a mesma falta de critérios pode provocar pequenas tragédias diárias, sem que a maioria se dê conta de que elas poderiam ser evitadas com procedimentos simples, como a escolha criteriosa de materiais e procedimentos ideais.

Por “pequenas tragédias diárias” podemos entender, por exemplo, os acidentes registrados nas rodovias. Já está provado e sacramentado que grande parte deles poderia ser evitada se as estradas contassem com pavimentação e sinalização adequadas, além de outros serviços de infra-estrutura. Estes fatos são traduzidos em estatísticas: nos feriados de fim de ano as rodovias que registraram queda no número de acidentes foram justamente as que já contam com infra-estrutura de sinalização e pavimentação adequadas. E, por adequadas, entendam tecnologias que foram profundamente estudadas para que sirvam a seu propósito. A Dutra, no trecho que corta a Serra das Araras, no interior fluminense, é um bom exemplo. Neste segmento de rodovia, que fica em uma região com intensidade de chuvas acima da média e também de intensa neblina, a sinalização horizontal precisou de tecnologia diferenciada para que seu desgaste fosse menor e sua eficiência maior. Os técnicos responsáveis da concessionária que administra a estrada levaram em conta estas condições climáticas para solucionar o problema que tornava o tráfego perigoso.

Intempéries ambientais de toda a natureza podem e devem ser dribladas com o uso de soluções planejadas. O estudo do local a ser sinalizado é fundamental para que a escolha dos materiais seja bem sucedida e vise tanto a eficácia como durabilidade, minimizando, assim, a incidência de pequenas ou grandes tragédias. Isso porque o homem está tentando. Mas ainda não conseguiu mudar a previsão do tempo.





* Áurea Rangel é química, mestre em engenharia de materiais e diretora executiva da Hot Line.
 
 
 
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